Sigur Rós – Ágætis Byrjun

•Novembro 6, 2009 • 2 Comentários

A minha preferida dos Sigur Rós.

Ali

•Novembro 6, 2009 • 4 Comentários

Quando vou de manhã, ainda em jejum e entro na sala ampla, a maior, a mais bonita. Desço e subo escadas. Percorro corredores de paredes brancas. Longas portas de vidro e as madeiras escuras, morenas de verniz, quentes e belas, tectos altos e o céu suspenso a espreitar-me por entre a minha procura de paisagem.

Tudo me entra e seduz. Todos os rostos que aprendi a fazer parte de mim e todos aqueles que me acrescentam, todos os dias.

Este tempo ali passado tem sido meu, tão meu e tão repleto de humanidade que nunca poderei guardar qualquer pedaço de amargura.

As vezes que percorro o pátio interior falando ao telefone. Quando largo tudo e venho só apanhar sol. Quando escolho ficar sozinha e agarro os momentos de mim ali e suspiro, suspiro, olhando o céu escuro das noites de Verão e dos dias de frio, quando um café quente me aquece numa chávena que agarro e que me queima e me reconforta ao mesmo tempo.

As vidas que me passaram, ali. As lágrimas que presenciei. As conversas que escutei. As amizades que fiz e que faço. O cansaço. A vontade de ir para casa, sozinha, a ouvir música e a olhar para o céu.

Na minha secretária estou rodeada de fotos muito grandes do meu filho. Tenho um candeeiro vermelho que me aquece e aconchega, tenho as janelas brancas atrás de mim, tenho as minhas queridas colegas, tenho todas as lembranças, toda a vontade de trabalhar, de dar, de partilhar.

E as pessoas continuam a vir para me contar as suas vidas, para se abrirem comigo, para me chorarem nas mãos e me ensinarem alguma coisa.

Fácil

•Novembro 1, 2009 • Comentários Desligados

Gosto de lá ir pela manhã. O verde inunda-me os olhos e o azul do céu é muito mais fresco e vivo do que noutro lugar qualquer. Há sempre um vento melancólico e por mais calor que faça, cresce uma humidade nas sombras, no casario antigo e em ruínas, nas traseiras das casas, no interior dos pátios.

Primeiramente saúdo o dia sentada na esplanada, observando e sendo observada pelos outros casais novos com filhos pequenos, enquanto beberico a minha meia de leite quente e divido um pão com o meu filho. Fileiras de bicicletas com rodinhas, de triciclos e motinhas alinhadas, abandonadas à entrada do café.

Partimos em seguida, para descobrir os patos que mergulham lânguidos no ribeiro que espreitamos da ponte. As teias de aranha, perfeitas, entre as ranhuras de ferro onde nos debruçamos.

Assim que chegamos ao parque eu refugio-me num banco ou num degrau altaneiro, que acolhe a minha sede de introspecção. Dali sentada, olho as crianças que brincam e viajo embalada pela música que os auscultadores me trazem.

Tudo me parece quase demasiado belo àquela hora, mas se calha irmos lá de tarde, há qualquer coisa no vento que brinca com as árvores, na solidão dos pátios, no ribeiro vazio de patos que se protegem do frio da noite, que me deprime e me entristece.

Saímos já pela hora de almoço. O calor do meio dia recorda-nos o almoço dos meninos e um a um é ver os paizinhos a arrancar crianças birrentas e ensonadas dos braços do parque. Quando chego a casa estou muito cansada, como se tivesse andado a correr atrás dos putos. Levo a alma repleta de música e de sonho e depois do almoço, deixo-me dormir com o filho, meio em transe, meio afastada da realidade.

A simplicidade do que trago comigo, a facilidade do prazer que consigo, contrastam com outros prazeres, com a dificuldade de outras felicidades. E às vezes o fácil é bem vindo e necessário. Às vezes é tudo o que eu quero.

Jay-Jay

•Novembro 1, 2009 • Comentários Desligados

Quase. Quase.

Também eu queria ir ver o vanderslice

•Outubro 23, 2009 • Comentários Desligados

Acordar

•Outubro 22, 2009 • Comentários Desligados

Tindersticks

•Outubro 10, 2009 • 4 Comentários

Para dançar. A dois.

Águas de Outubro

•Outubro 9, 2009 • Comentários Desligados

Pelas águas de Outubro, que me lavaram a alma, sabão e espuma branca a correr veloz na calçada negra, ribeiro feito de chuva, palmilhando caminhos, galgando passeios e estradas, correndo veloz, como a torrente, como a corrente forte desse rio de afectos.

Somos feitos de vento e de sol, de chuva e de terra. Somos como a folha seca que é arrancada docemente da árvore, que é levada pelo vento, que é pisada, desfazendo-se em mil pedaços, impossíveis de juntar, que é subitamente um tesouro nas mãos de uma criança, que se dissipa em pó, em solo molhado, em cama dourada feita de outras folhas, que se junta ao todo e que se torna noutra coisa, sempre, sempre em mudança.

Dobro-me e estico os braços, que alcançam o chão. As minhas mãos tocam o chão. Ergo-me e rodopio, no frenesim da música, embalada na dança dos movimentos, em transe, em abandono, em mim.

Se caminho para casa, em solidão apetecida, admiro as nuvens, carregadas de água, e sinto o cheiro da chuva, adivinhando a humidade da erva que os meus olhos não alcançam.

Ao longe, no passeio que subo, vejo uma criança pequena que corre, que se lança na minha direcção. Braços no ar, braços no ar, e ao lado o pai que sorri perante o nosso espanto e alegria.

A minha mamã, repete ele em continuo, e de repente tenho-o nos meus braços, tomo-o nos meus braços, em mil beijos de amor, numa alegria tão imensa que a vida parece culminar ali.

No peito uma dor constante. Pedaço de mim que me falta. Nada me chega para apaziguar a saudade. Mil borboletas cá dentro e mil asas de agitação que nunca me deixam esquecer.

Tudo brilha e cintila, tocado pelas águas de Outubro. Alma lavada e despida, renovada pelas lágrimas. Branca e nova, pura e dada, como ele, a descer a rua, os braços no ar, a correr para mim.

Perder medos

•Outubro 8, 2009 • 7 Comentários

Entrei na sala sabendo de antemão que iria ficar nervosa. À medida que as pessoas iam entrando, comecei a sentir vontade de as acolher, de lhes falar, de as olhar nos olhos e de lhes fazer perguntas. Senti a desorientação dos outros, a expectativa e então, quando dei por mim, já as palavras me saiam naturalmente e os nervos nunca chegaram a surgir.

Sempre tive dificuldade em falar em público, de fazer apresentações orais. Costumava dizer que o meu limite de público eram 3 pessoas, que a partir daí a coisa descambava. Um dia uma amiga preciosa disse-me uma coisa absolutamente fantástica a propósito dessa minha dificuldade. Disse que eu devia encarar a coisa como sendo uma partilha, como sendo um momento em que eu me dou aos outros e em que aquilo que estou a dar se torna muito mais importante do que tudo o resto.

Aquelas palavras fizeram sentido cá dentro. Mexeram comigo. E algo mudou a partir daí. Foi um daqueles momentos decisivos na nossa vida, porque ela também tem sido uma pessoa decisiva na minha vida.

Ontem senti que me esqueci de mim e que consegui dar o meu melhor a transmitir uma ideia, a esclarecer. Senti que cresci um bocadinho também, e que dei uns passinhos em direcção a uma autonomia e independência que preciso, que procuro.

Quando anuncio a minha separação aos que me rodeiam, as reacções são interessantes de observar e de analisar.

É curiosa a análise que os outros fazem de nós, da nossa vida e das nossas opções. As pessoas julgam muitas vezes adivinhar mais do que os próprios, categorizam e generalizam situações, talvez como defesa, como apaziguamento, como tentativa de entender o que não entendem. Eu certamente fiz e faço o mesmo, muitas vezes.

A minha separação não tem a ver com paixões que substituem paixões, nem com a excitação de novos momentos, ou com a adrenalina da novidade. A minha separação tem a ver comigo e com o pai do meu filho, com a nossa relação e com todos os seus defeitos e qualidades, para o bem e para o mal, tem a ver connosco.

Tem a ver com a verdade e com querer viver a vida com coragem e honestidade, sem acomodações facilitistas e vantajosas. Tem a ver com a vontade de não criar um filho numa família infeliz e no meio de discussões. Tem a ver com a vontade muito grande de manter a profunda amizade e amor que nos une aos três e não querer abdicar dela, porque nós os três seremos sempre uma família.

Tem a ver com o meu processo de metamorfose, de perca de medos e cobardias e justificações e querer viver, sentir, agarrar a vida.

Ser feliz em mim, com as minhas coisas, as minhas escolhas, as minhas vivências, as pessoas que já são minhas e a quem eu pertenço, mesmo que isso signifique acordar sozinha, mesmo que tenha de chorar muitas lágrimas, choro-as com gosto, porque me fazem sentir viva.

Porque se tem sido muito, muito difícil, porque se não é simples nem imediata a tomada de consciência de uma mudança destas, de uma decisão destas, tem também trazido momentos de grande felicidade, liberdade e força como talvez nunca tenha sentido antes.

E caminho despida de armaduras, as mãos nuas e o coração aberto e livre para dar e receber.

E isso noto-o em tudo, no prazer que retiro do meu trabalho, no meu entusiasmo a querer fazer as coisas pela minha própria cabeça e a querer chegar às pessoas, (porque é isso que é suposto, e não me limitar a repetir procedimentos burocráticos vazios), na alegria de estar com o meu filho, no imenso deleite que retiro da minha música, da minha escrita e da leitura, na relação que estabeleço com os amigos, na qualidade e na profundidade.

Dar-me aos outros, à vida, custa muito, por vezes, mas também permite uma aprendizagem constante, um enriquecimento brutal.

Saio de mim e retorno mais rica, às vezes com algumas lágrimas, mas tão viva e verdadeira que tudo, tudo vale a pena.

Nós

•Outubro 4, 2009 • Comentários Desligados

No meio das gargalhadas. Riso sufocado em cumplicidade. Deitei-me à espera e adormeci. Quando acordei, abri os olhos e os braços para a alegria, para o entusiasmo, para a descoberta. Corri o olhar pelo todo feliz. Andámos, andámos e tanto fizemos. Tudo quisemos alcançar. Passei a mão pelo pescoço transpirado. No meio da multidão demos as mãos, à descoberta, protegendo cada um de nós, na cidade quente e vibrante. A noite acolheu-nos, ao rubro.

E a manhã chegou de mansinho. No meio das conversas, das gargalhadas. No meio de nós.