A mil

•Novembro 24, 2009 • Comentários Desligados

Todos os dias o meu mundo desaba e se ergue com esplendorosa esperança. Eu vivo em modo limite, tentando acompanhar o ritmo desenfreado dos sentimentos. Completamente incapaz de fazer de outra forma. Dominada por qualquer coisa que não explico, nem tento.

Quase como um animal que traz os sentidos mais apurados, deslizo por aí, tentando passar despercebida, mas virando cabeças ao meu rasto gritante de sofrimento e de felicidade. Largo cheiro de vida que fica por onde ando e alguns olhos seguem-me intrigados com a intensidade que fica.

E fica apenas uma leve suspeita da realidade que vivo. Transpiro drama nos meus olhares tristes, na música que me isola ou no meu entusiasmo súbito. Os homens olham-me intrigados, as mulheres sondam-me, desconfiadas e de mim percebe-se qualquer coisa que não controlo e que levanta um pouco do véu da montanha russa em que se transformou a minha vida.

Sentida, vivida a mil.

O meu amor

•Novembro 21, 2009 • Comentários Desligados

O meu amor é grande. Cresce na ponta do voo da gaivota que se lança, intrépida, em direcção ao sol. Corre, lesto, rasando os campos verdes, erguendo-se para lá da copa das árvores, abandonando-se na limpidez e na quietude do céu, recusando limites, abraçando a imensidão libertadora do espaço.

Dentro de mim é senhor. Dono absoluto das minhas vontades. Comanda a alegria feliz da minha esperança, dirige a tristeza mais profunda, a que me faz dobrar sobre mim mesma e que me paralisa por completo.

O meu amor é livre. Verdadeiro e total. Quer sempre encontrar par, em igualdade, em dimensão e não se satisfaz com menos, com nada aquém.

O meu amor é maternal, porque quer cuidar, proteger, embalar e adormecer nos braços. O meu amor é filho, porque procura um refúgio, um colo, um abrigo.

O meu amor não conhece vinganças, não sabe o que é conter-se, esconder-se, enganar, manipular. Assume-se com humildade, esperando apenas encontrar um amor igual.

Quando ferido, quando magoado, cai em lágrimas desiludidas, frágil, triste, vulnerável.

E perdoa. Perdoa. Esquece e volta e volta e volta.

O meu amor perdoa, mas fica doente e fraco quando a ferida é constantemente exposta, aberta, pisada.

Moribundo, definha em agonia, mas digno e verdadeiro até ao fim. Quando encontra ódio e incompreensão, morre-me nas mãos, recua finalmente, e tranca-se no meu peito, soluçando todos os dias um bocadinho, até que acalma e se cala.

Vive muitas vidas, renasce inesperadamente, ganha muitas formas. Mas sempre puro, corajoso, verdadeiro.

Sempre imenso e inteiro.

Cabe-me todo dentro do peito. Faz-me sonhar ou adoecer. Impera em mim com a força da vida. Fiel, leal, sempre, sempre, até ao fim.

Obrigada

•Novembro 20, 2009 • Comentários Desligados

Obrigada por me conheceres tão bem. Obrigada por me adivinhares, ao menor movimento, à menor hesitação, mesmo no meu silêncio.

A tua disponibilidade para mim, a tua preocupação, a tua generosidade comovem-me.

Tens noção da tua raridade? Da tua grandeza? Da tua humanidade?

Tu calas as coisas que te enaltecem, quando os outros as esfregam na cara dos demais para se engrandecerem.

Tu estás sempre presente. Mesmo quando não podes, mesmo quando não seria suposto.

Tu perdoas. Tu perdoas-me as minhas patetices tão, mas tão prontamente.

Tu vês-me. Tu sabes-me.

Tenho tanta sorte em ter a tua amizade. Tenho tanta sorte em te ter na minha vida.

Obrigada por seres assim.

Paixão

•Novembro 16, 2009 • Comentários Desligados

Pela música destes senhores.

Jay Jay ao vivo e a cores

•Novembro 14, 2009 • Comentários Desligados

Foi tão bom, tão bom, tão bom, que só de me lembrar fico de lágrima parva.

Chegámos tarde, o dia foi todo ele de sexta 13, feito de problemas e de pequenas imprevistos no trabalho, de uma sessão colectiva que fui fazer em cascos de rolha e corridas contra o relógio e finalmente chegar ao santiago e ouvir, já cá de fora, a voz mágica daquele senhor sueco que nos encantou a todos.

O ambiente estava romântico, o Jay Jay cantava o Only for You e eu deixei-me sentar na escada apinhada de gente, e fiquei a ouvir e a vê-lo seduzir-nos com a voz e com a intimidade da sua música. Aliás, intimista é a palavra que melhor descreve a noite.  O povo todo que ali estava, debruçado no varandim, circulando nas escadas, pelos bares, estava todo no mesmo enlevo, na mesma adoração.

E os encores chegaram, e o senhor sueco foi brindado com ovações de deitar a casa abaixo e agradeceu com a simpatia e a generosidade que lhe é conhecida, cantando alguns temas não previstos, mais electrónicos e também o Suicide is Painless dos Manic Street Preachers.

E saímos dali com a alma a transbordar, com as emoções embriagadas e com a barriga vazia (que nem jantámos, tal as pressas) e lá fomos em busca de uma tasca no bairro alto, onde matámos a fome em travessas de batatas fritas e em conversas e risos regados a finos.

André

•Novembro 12, 2009 • Comentários Desligados

Hoje abri o mail e lá estava ele. Já o tinha visto no blog. Os traços familiares tão característicos do pai e do irmão.

Na foto com a mãe, toda a ternura de um bebé adormecido que traz ainda a expressão da paz uterina. Vejo agora que tem o cabelito claro, como a mãe. E ela espreita com enlevo e adoração a cria desejada, com cheiro de leite e com aquele cheiro mágico e secreto que nos une a todos, universalmente, na vontade infinita de amar e proteger um bebé acabadinho de nascer.

Novembro

•Novembro 9, 2009 • Comentários Desligados

Digo-me que chegou o Outono. No frio que me faz correr de manhã, pés descalços, a procurar a manta do sofá para me deitar com o filho a ver bonecos na televisão, nas manhãs só nossas de fim-de-semana.

No meu desejo súbito de ficar em casa, toda enroscada num livro, numa música que coloco a tocar num contínuo obstinado e um bocadinho obcecado. Nas sopas que faço umas seguidas às outras. No desejo intenso de chocolate. No prazer do calor da aula de ginástica e no duche demorado que se segue. Nos abraços quentinhos do filho. Na vontade de abraços demorados. Na mão que percorro pelo corpo frio debaixo da roupa. Nos arrepios e nas chávenas de café que me aquecem as mãos.

Digo-me que chegou o Outono, quando escolho ficar quieta, só eu e a minha música, trabalhando em silêncio na sala barulhenta e apinhada de gente. Quando tudo em mim clama por sossego, paz, paz e afecto. Quando uma interioridade se confunde com tristeza, mas se tranquiliza com um sorriso, com um olhar carinhoso.

Quando os cheiros me despertam e acordam cedo e mesmo que lá fora chova, e às vezes chove muito, sinto uma urgência desesperada de árvores, de caminhar nos trilhos enlameados, escorregadios de folhas secas e respirar a humidade da natureza que morre um pouco, para se poder renovar e nascer de novo. Como eu.

Domingo musical

•Novembro 8, 2009 • 1 Comentário

Acordar e ficar a ouvir esta versão ao vivo (muito, muito bem conseguida) de um tema que me faz sentir tão viva.

(Com uma parte final inebriante).

Sigur Rós – Ágætis Byrjun

•Novembro 6, 2009 • 2 Comentários

A minha preferida dos Sigur Rós.

Ali

•Novembro 6, 2009 • 5 Comentários

Quando vou de manhã, ainda em jejum e entro na sala ampla, a maior, a mais bonita. Desço e subo escadas. Percorro corredores de paredes brancas. Longas portas de vidro e as madeiras escuras, morenas de verniz, quentes e belas, tectos altos e o céu suspenso a espreitar-me por entre a minha procura de paisagem.

Tudo me entra e seduz. Todos os rostos que aprendi a fazer parte de mim e todos aqueles que me acrescentam, todos os dias.

Este tempo ali passado tem sido meu, tão meu e tão repleto de humanidade que nunca poderei guardar qualquer pedaço de amargura.

As vezes que percorro o pátio interior falando ao telefone. Quando largo tudo e venho só apanhar sol. Quando escolho ficar sozinha e agarro os momentos de mim ali e suspiro, suspiro, olhando o céu escuro das noites de Verão e dos dias de frio, quando um café quente me aquece numa chávena que agarro e que me queima e me reconforta ao mesmo tempo.

As vidas que me passaram, ali. As lágrimas que presenciei. As conversas que escutei. As amizades que fiz e que faço. O cansaço. A vontade de ir para casa, sozinha, a ouvir música e a olhar para o céu.

Na minha secretária estou rodeada de fotos muito grandes do meu filho. Tenho um candeeiro vermelho que me aquece e aconchega, tenho as janelas brancas atrás de mim, tenho as minhas queridas colegas, tenho todas as lembranças, toda a vontade de trabalhar, de dar, de partilhar.

E as pessoas continuam a vir para me contar as suas vidas, para se abrirem comigo, para me chorarem nas mãos e me ensinarem alguma coisa.